O benchmark não deveria ser o ponto de partida

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro: usei, uso e continuarei usando o benchmark como referencial importante para evoluir processos, jornadas, operações e produtos. Faço questão de dizer isso porque já deixei alguns dos melhores profissionais dos meus times com missões áridas de mapear concorrentes e modelos de outros segmentos. Mea culpa feito.

Dito isso, o que me preocupa é outra coisa: a velocidade com que algumas lideranças encurtam a conversa sobre problemas complexos indo direto para "faz um benchmark". O raciocínio costuma ser: a grama do nosso concorrente é mais verde, mais bonita e custa menos para manter. Descobre como eles fazem.

A gente descobre. Identifica a empresa de jardinagem, o produto importado, o custo mais baixo. Solução aplicada, missão cumprida.

Até os meses seguintes, quando o Controller aparece dizendo que o custo de corte dobrou. Chama a empresa de jardinagem. A explicação: a posição do sol no nosso terreno acelera o crescimento, e o produto, que funciona perfeitamente lá, tem o efeito oposto aqui. Se tivéssemos trabalhado com o nosso próprio contexto antes, teríamos descoberto que um manejo específico usaria o mesmo insumo de sempre, com menor custo e melhor resultado.

Peço desculpa se parece Globo Rural. Mas é exatamente assim que funciona em qualquer área, em qualquer empresa.

Você chega onde o outro já estava.

Quando copiamos soluções sem entender o contexto de origem, alcançamos a referência, mas na maioria das vezes nunca ultrapassamos. A inovação mora no entendimento profundo do seu próprio problema.

Quando todas as empresas de um setor olham para as mesmas referências, elas ficam parecidas, não melhores. É uma corrida em que todo mundo chega no mesmo lugar ao mesmo tempo e chama isso de progresso.

O caminho que acredito:

Primeiro, conhecer bem o seu problema. Dados do negócio, comportamento do cliente, os sinais que o contexto entrega todos os dias e que raramente são interpretados com atenção. Sem isso, nem o benchmark vai ajudar porque você não vai saber o que está procurando.

Segundo, construir hipóteses internas antes de sair olhando para fora. Criar ambiente de teste, seja em laboratório ou em campo controlado, com métricas claras de sucesso e de consequência.

Terceiro, aí sim, olhar a grama do vizinho. Com contexto, não com inveja.

O horizonte aqui é promissor. Inteligência artificial, digital twins (gêmeos digitais, réplicas virtuais de processos ou operações que permitem simular cenários antes de aplicá-los na vida real, no Brasil ainda concentrados principalmente em indústria pesada e óleo e gás, com a Petrobras como caso mais avançado, mas com potencial enorme de expansão para outros setores) e agentes que simulam comportamentos reais têm potencial para acelerar muito essa etapa de testes, permitindo experimentar sem comprometer recursos reais. No campo de produto digital, isso já começa a ser realidade: ferramentas de vibe coding permitem construir protótipos funcionais em horas, o que antes levava semanas, encurtando o ciclo entre hipótese e validação.

Inovar, na minha prática, não significa necessariamente investimento pesado em tecnologia. Às vezes é regar a grama uma vez por semana em vez de três e descobrir que ela fica mais bonita e cresce mais devagar. Às vezes é questionar um processo que tratávamos como lei.

O que aprendi na prática: conhecer, ter controle, avaliar hipóteses próprias, olhar para fora, testar e executar. Nessa ordem e, claro, nada disso será fácil.

Fábio Rodrigues

Foto de Rémi Müller na Unsplash

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