Simule antes de lançar: o que a Aaru está fazendo nos EUA
Grupos focais, questionários, entrevistas em profundidade. Essas ferramentas funcionam. Foram testadas por décadas, entregam insights e continuam sendo parte essencial de qualquer processo sério de desenvolvimento de produto e experiência do cliente.
O que a Aaru, startup americana fundada em 2024, traz não é um substituto para esse arsenal. É uma camada antes: uma forma de testar hipóteses em minutos, com escala que a pesquisa tradicional não consegue atingir, antes de você decidir onde vale investir meses de trabalho.
Comentei no meu último artigo “outros caminhos” sobre gêmeos digitais a citação na Investnews da publicação sobre a empresa em março de 2026, no Wall Street Journal. Fundada por Cameron Fink (19 anos), Ned Koh (18) e John Kessler (15), a Aaru chegou a uma avaliação de US$ 1 bilhão em menos de dois anos, com investimentos da Accenture, General Catalyst e Redpoint Ventures. Essa é a novidade que traz para esta edição.
A solução que eles construíram
O produto principal da Aaru se chama Lumen. Ele cria populações virtuais de consumidores: agentes de IA treinados com dados demográficos e motivações que simulam como grupos reais de pessoas pensam, decidem e agem.
Você configura o perfil do seu público, define o estímulo, seja uma nova política, um preço, uma mensagem ou uma jornada, e a plataforma projeta a reação de milhares de perfis simultaneamente. O ciclo que costumava levar semanas passa a levar minutos.
A proposta é de complementaridade, não de substituição. Grupos focais e entrevistas em profundidade continuam entregando o que a simulação ainda não alcança: nuance, contexto emocional, descobertas inesperadas que surgem na conversa. Mas há uma limitação bem documentada na pesquisa com humanos: as pessoas nem sempre fazem o que dizem que vão fazer. E é exatamente nesta lacuna, entre intenção declarada e comportamento real, que a projeção por agentes de IA tem mostrado resultados interessantes.
Resultados que já aconteceram
Antes de falar em potencial, vale olhar para o que já está documentado. Os casos abaixo são públicos e verificados.
A EY usou a Aaru para recriar o seu relatório global de gestão de patrimônio e ativos de 2025, um estudo com 3.600 investidores em mais de 30 mercados. O trabalho foi concluído em um único dia, com 90% de correlação com os resultados da pesquisa tradicional. Mas o dado mais revelador não é a velocidade: é que, nos pontos onde a Aaru divergiu das respostas humanas, a IA se mostrou mais precisa. 82% dos entrevistados humanos afirmaram que manteriam o assessor financeiro dos pais após herança. A Aaru projetou 43% de retenção, valor muito mais próximo do que o comportamento real costuma mostrar. Há uma diferença entre o que as pessoas dizem que vão fazer e o que de fato fazem, e a simulação capturou isso melhor do que a declaração direta.
A Spindrift, marca americana de bebidas, usou a Aaru para selecionar uma nova linha de chás gelados. Pelo método tradicional, o processo levaria dois meses com 500 consumidores reais. Com a Aaru, chegou à decisão em uma semana. Além do lançamento de produto, a empresa passou a usar a plataforma para apoiar decisões de marketing e esclarecer perguntas estratégicas complexas.
O McDonald’s usou a plataforma para simular como consumidores de baixa renda reagiriam a pressões econômicas externas, como tarifas, e o impacto disso nos hábitos de consumo. No contexto em que a rede registrou queda de 3,6% nas vendas em lojas já abertas no primeiro trimestre de 2025, entender o comportamento desse segmento antes que ele mudasse valia mais do que qualquer relatório retrospectivo.
O Interpublic Group (IPG), um dos maiores grupos de comunicação e publicidade do mundo, fechou parceria com a Aaru em agosto de 2025 para integrar o modelo Lumen nas suas ferramentas de design de campanhas. O uso é direto: simular como diferentes públicos reagem a estímulos criativos antes do lançamento, com foco em serviços financeiros, saúde e bens de consumo. O objetivo declarado é substituir ciclos longos de validação por projeções rápidas que orientem a tomada de decisão antes da campanha ir ao ar.
A Accenture foi além do uso: investiu na empresa e está integrando o Lumen nos seus serviços de consultoria por meio da Accenture Song, com aplicações em desenvolvimento de produto, estratégia de cliente e serviço ao consumidor. Baiju Shah, diretor de estratégia da Accenture Song, assumiu o papel de conselheiro estratégico da Aaru.
Produto novo e mudança de jornada: onde isso acelera o jogo
Todo time de produto e toda equipe de estratégia ligada à experiência do cliente enfrenta o mesmo problema: quando você muda algo, leva semanas ou meses para descobrir se a decisão foi boa. Uma nova jornada de autoatendimento, uma mudança no script de retenção, uma reestruturação do fluxo de pós-compra. Você testa no cliente real, em produção, e descobre o impacto depois que ele já está na fila de atendimento.
Com projeção de comportamento por agentes de IA, esse teste acontece antes. A escala muda: em vez de uma amostra limitada pelo tempo e pelo custo de recrutamento, você projeta a reação de milhares de perfis simultaneamente, incluindo segmentos que raramente aparecem em pesquisas convencionais, como o cliente que só entra em contato quando algo dá errado, o usuário de baixa frequência que representa uma fatia silenciosa da base, ou o perfil regional cujo comportamento destoa da média nacional.
Três aplicações diretas:
Antes de lançar um produto novo: projete como diferentes segmentos vão interagir com o fluxo de suporte associado. Qual perfil vai travar na ativação? Qual vai buscar ajuda no terceiro dia? Você descobre antes de construir a base de conhecimento e treinar a equipe, não depois da primeira onda de chamados.
Antes de mudar uma jornada crítica: uma nova política de troca, um reajuste, uma mudança no fluxo de pós-venda. A projeção mapeia quais segmentos vão reclamar, quais vão sair em silêncio e quais não vão nem notar. Você prioriza a intervenção antes de o volume chegar.
Antes de escalar uma campanha: simule a reversão. Se a oferta gerar dúvidas, qual é o volume de contatos que vai entrar? Qual é a jornada de confusão mais comum por segmento? Prepare o atendimento para o que vem, não para o que você esperava que viesse.
A lógica é simples: decisões de produto e jornada geram consequências diretas no atendimento. Projetar essas consequências antes de implementar é crucial, pois difere de apenas estimá-las pelo histórico; novos comportamentos do cliente podem ser provocados. Trata-se de uma testagem com população virtual, que precede o cliente real, complementando a pesquisa qualitativa, e sendo especialmente útil em movimentos não planejados pela companhia.
E no Brasil? Uma oportunidade para construções tupiniquins
A Aaru ainda é uma empresa jovem, com portfólio concentrado em pesquisa estratégica e política nos EUA. Mas o modelo que ela representa, projeção de comportamento em escala para antecipar como os clientes reagem, já é real o suficiente para o mercado brasileiro prestar atenção.
E aqui há uma oportunidade específica para o Brasil.
Dados públicos do IBGE, BACEN, CETIC.br e de órgãos de defesa do consumidor já fornecem granularidade demográfica e comportamental por região. Quando combinados com o histórico da base de clientes de cada empresa, incluindo jornadas reais e padrões de contato documentados, essa união poderia gerar um modelo de alta precisão. O que está em falta é quem consiga conectar todos esses dados em uma plataforma de projeção de comportamento focada na experiência do cliente. Essa conexão ainda precisa ser estabelecida.
Um caminho possível para melhorar a experiência
A Aaru demonstra uma abordagem inovadora ao utilizar a pesquisa de mercado como ponto de partida para resolver a questão central de entender o comportamento do cliente de forma mais rápida e econômica, antes da tomada de decisões cruciais que impactam a experiência do usuário. Será relevante acompanhar as próximas evoluções da Aaru ou novas versões pelo mundo.
Fábio Rodrigues
Foto de Eric Krullna Unsplash
Fontes e referências
1. Vranica, S. (2026). A startup de US$ 1 bilhão fundada por três adolescentes. The Wall Street Journal / InvestNews. https://investnews.com.br/the-wall-street-journal/a-startup-de-us-1-bilhao-fundada-por-tres-adolescentes/
2. TechCrunch (2025). AI synthetic research startup Aaru raised a Series A at a $1B headline valuation. https://techcrunch.com/2025/12/05/ai-synthetic-research-startup-aaru-raised-a-series-a-at-a-1b-headline-valuation/
3. EY (2025). How AI simulation accelerates growth in wealth and asset management. https://www.ey.com/en_us/insights/wealth-asset-management/how-ai-simulation-accelerates-growth-in-wealth-and-asset-management
4. Accenture Newsroom (2025). Accenture invests in and collaborates with Aaru. https://newsroom.accenture.com/news/2025/accenture-invests-in-and-collaborates-with-ai-powered-agentic-prediction-engine-aaru/
5. GlobeNewswire (2025). Interpublic Partners with Aaru to Leverage AI-Powered Predictive Simulations. https://www.globenewswire.com/news-release/2025/08/11/3130751/0/en/Interpublic-Partners-with-Aaru-to-Leverage-AI-Powered-Predictive-Simulations-to-Accelerate-Scale-and-Optimize-Marketing.html
6. Semafor (2024). AI startup Aaru uses chatbots instead of humans for political polls. https://www.semafor.com/article/09/20/2024/ai-startup-aaru-uses-chatbots-instead-of-humans-for-political-polls
7. Aaru (2026). Site oficial. https://aaru.com/